Aplicações: Transformadores de aterramento

11 de outubro de 2017 - 21 minutes read

 

A SENIOR Engenharia realiza diversas pesquisas em suas áreas de atuação, objetivando fazer trabalhos com qualidade e eficácia. Saiba mais sobre os estudos técnicos disponíveis no portfólio da empresa, ou leia abaixo o artigo publicado por nosso professor e engenheiro de renome Paulo Costa.

 

1- INTRODUÇÃO

Os transformadores de aterramento são aplicados em muitas situações onde o arranjo do sistema elétrico exige que seja criado um ponto de aterramento do neutro adicional, ou simplesmente criar este ponto quando de sua inexistência.

Em função do que foi estudado nos quatro artigos anteriores, não se recomenda que um sistema elétrico trifásico industrial seja mantido sem aterramento do neutro, pois, durante períodos de faltas fase-terra existe a possibilidade real de ocorrência de sobretensões transitórias que podem danificar a isolação de motores, transformadores, cabos, bem como de outros componentes importantes.

Outra razão para se implementar o aterramento do neutro se relaciona com as dificuldades de se identificar o local da falta fase-terra em sistemas com neutro isolado flutuante, isto é neutro sem conexão à terra.

De fato, quando ocorre uma falta fase-terra nestes sistemas a corrente é somente de natureza capacitiva, de baixo valor e, portanto, de difícil detecção e de identificação do local de sua ocorrência.

Para sistemas elétricos industriais foi mostrado que a melhor opção é a de utilizar Resistores de Baixo Valor Ôhmico em média tensão e Resistores de Alto Valor Ôhmico em baixa tensão.

Para sistemas de potencia de alta tensão (SEP), a prática mais comum é a de aterrar o neutro solidamente, o que é vantajoso para a isolação bem como para a aplicação de para-raios nestes sistemas. A isolação dos SEP é um dos itens de maior peso no seu custo, e geralmente é definida pelas sobretensões que podem ocorrer nos mesmos, entre as quais  são importantes aquelas que ocorrem durante períodos de falta à terra, que são classificadas como “sobretensões transitórias” e “sobretensões temporárias”. Ambos os tipos são controlados pelo aterramento do neutro.

Outro motivo para se adotar sistema solidamente aterrado nos SEP, se prende á facilidade de detecção da falta fase-terra, uma vez que, com o sistema solidamente aterrado, obtemos baixo valor da impedância de sequencia zero, que é importante fator de controle do valor do curto fase-terra. A presença de impedância proposital no neutro dos SEP, somada com as impedâncias naturais de retorno do curto fase-terra, principalmente das resistências de pé de torre das linhas de transmissão, podem reduzir significativamente o valor do curto em questão, e comprometer a operação de proteções importantes, como a dos relés de distancia de falta fase-terra.

Observa-se que nos sistemas elétricos industriais este raciocínio não se aplica, pois o retorno do curto fase terra é garantido pelo sistema de aterramento (malha de terra industrial) que se estende por toda a planta e garante reduzida impedância de retorno. Estes sistemas podem, portanto, ser aterrados por meio de resistores.

Do exposto, justifica-se plenamente a necessidade de conhecermos a aplicação dos transformadores de aterramento, cujo proposito é o de criar o ponto neutro em um sistema  trifásico quando é importante e se deseja faze-lo.

Este artigo e o próximo estão dedicados ao estudo dos transformadores de aterramento, e juntamente com os quatro anteriores [1], [2], [3] [4], completam a serie de seis artigos que buscam fornecer informações importantes sobre o aterramento do neutro, principalmente nos aspectos voltados para aplicação industrial.

2- CASOS TÍPICOS DE NECESSIDADE DOS TRANSFORMADORES DE ATERRAMENTO

Para iniciar o estudo sobre transformadores de aterramento, vamos considerar duas situações reais de sua aplicação. A primeira delas, já considerada em [4] é vista na figura 2A, a seguir.

Pode ser verificado que a aplicação de um resistor de aterramento na barra principal evita a instalação de Resistores de Baixo Valor Ôhmico nos neutros dos geradores G1 e G2, mantendo o sistema elétrico industrial com no máximo dois pontos de aterramento o que é ideal, uma vez que simplifica o esquema de proteção de falta à terra e reduz o valor da corrente total da falta de 1/3, no caso de da presença de dois geradores.

Por exemplo, se não fosse utilizado transformador de aterramento e o valor necessário para controlar a sobretensão transitória com o sistema industrial operando com no mínimo um gerador, for de 200A e o sistema elétrico da concessionária puder também alimentar o sistema na ausência de qualquer gerador, seria necessário utilizar resistor de 200A em todos os neutros ( G1,G2, e transformador de acoplamento com a concessionária), totalizando 600A de falta fase-terra.

Com a aplicação do resistor de aterramento na barra, conforme figura 2A, será necessário apenas dois resistores, totalizando 400 A de falta à terra. Naturalmente que quanto maior o número de geradores presentes na planta industrial, maior o ganho na aplicação do transformador de aterramento na barra, em termos e redução da corrente total de falta à terra.

Outra situação, bastante comum, está delineada na figura 2B a seguir, onde temos a interface de um sistema industrial com cogeração, e no qual o transformador de acoplamento com a concessionária possui a conexão estrela do lado da indústria e conexão triangulo do lado da concessionária. Verifica-se que, estando os sistemas de cogeração e da concessionária em paralelo, um curto circuito fase-terra no ponto F indicado provoca a abertura do disjuntor DJ2 na subestação da concessionaria, (que possui neutro solidamente aterrado) enquanto que o disjuntor DJ1 na planta industrial se mantém fechado devido ao fato de não existir ponto de aterramento do neutro no transformador TR1, no lado da conexão triangulo.

A solução correta neste caso consiste em criar um ponto de aterramento no lado da conexão triangulo, utilizando um transformador de aterramento com o neutro solidamente aterrado, conforme indicado na figura 2B. Este procedimento evita a ocorrência de sobretensões transitórias na linha/sistema que executa a conexão entre os disjuntores DJ1 e DJ2 após abertura do disjuntor DJ2 para curto no ponto F.

A solução para o caso do transformador de acoplamento ser de conexão contraria à examinada, isto é, triangulo no lado da indústria e estrela aterrada no lado da concessionária, seria instalar o transformador de aterramento no lado da conexão triangulo, isto é, lado da indústria, como visto na figura 2C. Neste caso o neutro do transformador de aterramento será aterrado por meio de resistor, devido às necessidades do sistema elétrico industrial.

Observa-se que algumas concessionárias padronizam este tipo de conexão na interface com os sistemas elétricos industriais, a fim de eliminar as sobretensões transitórias e garantir a operação da proteção fase-terra nos dois lados da conexão, isto é abertura dos dois disjuntores DJ1 e DJ2 mostrados na figura 2B.

3- TIPOS DE TRANSFORMADORES DE ATERRAMENTO

 

Embora existam outros tipos, atualmente são utilizadas três conexões básicas de transformadores de aterramento para criação do neutro em um sistema elétrico trifásico, a saber:

  • Conexão estrela com neutro acessível no lado primário e triangulo no lado secundário. O enrolamento em triangulo é utilizado apenas para compensação das correntes de sequencia zero, não sendo utilizado para cargas. O neutro acessível do lado em estrela é utilizado para aterramento solido ou através de resistor. Ver figura 3A.

  • Conexão estrela com neutro acessível no lado primário e delta aberto no lado secundário. O lado em estrela deve neste caso deve ser sempre solidamente aterrado, enquanto que o lado em delta aberto só pode ser utilizado para o caso de aterramento através de resistor, pois se for fechado, voltamos ao caso anterior. Observa-se que o resistor fica instalado entre os terminais do delta aberto. Ver figura 3B.

Conexão denominada “zig-zag”. Esta é uma conexão especial que utiliza um transformador trifásico, na realidade um reator trifásico, com duas bobinas por fase, conectadas de uma forma especial, cruzada, que caracteriza o nome do transformador. Ver figura 3C. Esta conexão será alvo de considerações adicionais, devido a sua importância.

Qualquer dos tipos de conexão, quando projetado corretamente funciona bem, sendo apenas uma questão de custo. Por exemplo, pode-se dispor na instalação de um transformador na conexão estrela- triangulo que se aproveitado, reduz os custos.

A conexão estrela aterrada com o resistor conectado nos terminais do delta aberto, permite utilizar um resistor de baixa tensão, o que pode reduzir os custos.

Em termos de custo de aquisição de um transformador de aterramento novo, em geral o de conexão zig-zag é o de menor custo.

4-OPERAÇÃO DOS TRANSFORMADORES E ATERRAMENTO

Qualquer transformador de aterramento deve em princípio oferecer um caminho de baixa impedância para as corrente de sequencia zero que circulam durante a falta à terra .

Admitindo-se a existência de um curto fase-terra na fase A do sistema, com o mesmo sem carga, temos as seguintes condições de contorno para as correntes envolvidas:

Concluímos que durante um curto fase-terra a corrente 3I0 circula do ponto de falta pelo neutro do transformador de aterramento, distribuindo-se no circuito de acordo com sua topologia, conforme figura 4A seguinte:

Observam-se no sistema da figura 4A no qual foi adotado um transformador de aterramento na conexão “zig-zag” os seguintes aspectos importantes:

  1. A corrente de falta, igual a três vezes a corrente de sequencia zero, entra pelo ponto de aterramento criado pelo transformador de aterramento (com ou sem resistor) e se divide pelas três fases do mesmo, isto é, por cada fase ou perna do transformador de aterramento circula somente um terço da corrente total de falta, que é igual ao valor da corrente de sequencia zero (I0). Isto acontece em qualquer tipo de transformador de aterramento, independente da sua forma construtiva.
  2. Em termos de tensão, podemos , utilizando a figura 4A, extrair as seguintes conclusões que são importantes para se calcular a potencia do transformador de aterramento para qualquer tipo de transformador que seja utilizado.
  3. Considerando o neutro do transformador de aterramento aterrado por meio de resistor, podem ser obtidas as seguintes equações, onde VAT,VBT,VCT são as tensões de fase para terra, VAN,VBN,VCN  são as tensões de fase para neutro e VNT é a tensão de neutro para terra.VAN – VAT + VNT = 0VBN – VBT + VNT = 0VCN – VCT +VNT =0Considerando que VAN + VBN+ VCN = 0, segue que:3 VNT = VAT+ VBT+ VCTVNT = 1/3 (VAT + VBT + VCT) = V0

Conclui-se, pois que a tensão de neutro para terra, ou o “deslocamento do neutro” como algumas vezes é denominada a tensão VNT, é igual á tensão de sequencia zero das tensões de fase para terra.

Para calcular V0 vamos considerar as equações de contorno de tensão correspondentes a um curto fase-terra na fase A, com o neutro aterrado por meio de resistor.

VAT = 0, VBT = VBA, VCT = VCA

Considerando a sequencia de fases VAB,VBC,VCA na qual VAB é a referencia, com ângulo zero, obtemos:

V0 = 1/3(0 +VBA+ VCA) =1/3(0 -VAB + VCA)

Considerando VFF como o módulo da tensão fase-fase e VFN como módulo da tensão fase neutro segue:

V0 =1/3(VFF < 180º + VFF < 120º) =1/3(VFF< 150º

V0 = 1/3(3 VFN<150º) = VFN<150º

Este resultado mostra que o módulo da tensão de sequencia zero das tensões de fase para terra é igual em módulo da tensão fase neutro.

5- CÁLCULO DA POTENCIA DOS TRANSFORMADORES DE ATERRAMENTO

A potencia do transformador de aterramento é definida em primeiro lugar pela potencia desenvolvida pelo mesmo no momento do curto fase-terra denominada “potencia instantânea” e em segundo lugar em função do tempo de operação desejado para o mesmo (10segundos, 1minuto, 5minutos, 10minutos, 30minutos, 1hora, 2horas) que conduz á potencia denominada “potencia de curto tempo”, “potencia de curta duração” ou “potencia de carga”.

Se o aterramento é realizado por meio de resistor na indústria, em geral o tempo de carga utilizado para o resistor é de 10segundos, sendo adotado o mesmo para o transformador de aterramento. Em primeiro lugar calcula-se a “potencia instantânea” e após calcula-se a “potencia de curto tempo”, utilizando-se um fator de redução em função do tempo de carga.

A “potencia instantânea” pode ser calculada considerando que, conforme figura 4A, circula a corrente de sequencia zero em cada fase do mesmo.

Portanto considerando o circuito de sequencia zero, podemos escrever que a potencia instantânea (PINST) vale :

PINST =3V0 I0 = (3I0)V0

Porem, 3I0 é igual á corrente de falta á terra IFT e V0 é igual à tensão de fase terra VFN.

PINST =IFTVFN

Para encontrar a potencia instantânea em kVA, devemos considerar a corrente em Ampéres e a tensão fase neutro em kV.Teremos então:

Em geral o valor da corrente de falta à terra IFT, é prefixado pelo projetista em função do sistema elétrico (industrial ou de potencia). Para os sistemas elétricos industriais valem as recomendações fornecidas nos dois primeiros artigos [1] e [2].

A potencia de curto tempo PCTtambém em kVAserá :

6-POTENCIA CONTÍNUA DO TRANSFORMADOR DE ATERRAMENTO

Além da potencia de curta duração do transformador de aterramento convém fazer previsão para uma potencia permanente para acomodar correntes que circulam continuamente no neutro como aquelas geradas por chaveamentos de inversores de frequência.

Esta potencia em geral varia de um mínimo de 3% da potencia de curta duração até cerca de 10% da mesma.

7- REATÂNCIA DO TRANSFORMADOR DE ATERRAMENTO

Além das potencias permanentes e de curta duração do transformador de aterramento deve ser fornecida também a reatância em Ôhms do mesmo para que seja possível fabrica-lo.

Esta questão será tratada no próximo artigo, juntamente com outros aspectos também importantes aplicação de transformadores de aterramento.

8 – REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

[1] Costa, P.F; “Capitulo I – Aspectos importantes da escolha do tipo de resistor de aterramento do neutro nos sistemas elétricos industriais” Revista Setor Elétrico, Julho 2014.

[2] Costa, P.F; “Capitulo II – Avanços na especificação e aplicação dos resistores de aterramento do neutro dos sistemas elétricos industriais em média tensão” Revista Setor Elétrico, Agosto 2014.

[3] Costa, P.F; “Capitulo III – Avanços na especificação e aplicação dos resistores de aterramento do neutro dos sistemas elétricos industriais em baixa tensão”, Setembro 2014.

[4] Costa, P.F; “Capitulo IV-Aterramento de sistemas elétricos industriais de média tensão com a presença de cogeração” Revista Setor Elétrico, Setembro de 2014.

Biografia resumida:

Paulo Costa é Engenheiro Eletricista e Msc pela Universidade Federal de Minas Gerais, professor aposentado dos cursos de engenharia elétrica da UFMG e CEFET-MG e diretor da Senior Engenharia e Serviços LTDA, Belo Horizonte-MG. É palestrante e autor de vários artigos na área de aterramento, proteção, segurança, descargas atmosféricas, qualidade de energia e sistemas elétricos industriais em geral. Atua como consultor, bem como na área de desenvolvimento tecnológico, com experiência de mais de 40 anos. E-mail: pcosta@seniorengenharia.com.br.